Bruna Silva

Bruna da Silva é integrante do Movimento Mães da Maré luta por direitos e igualdade frente a um Estado genocida e opressor, tratando-se de uma articulação formada por diversas mães e familiares, tanto de pessoas mortas quanto desaparecidas, que estão incessantemente buscando por reparação e solicitam respostas urgentes frente às forças estatais, em razão primordialmente da dimensão da memória de seus filhos, considerando o papel e a responsabilidade do Estado, bem como do Sistema de Justiça, em investigar e erradicar as violências que estão ao nosso entorno e que se concentram sobre os corpos favelados e periféricos.
A gente se enterra em casa quando enterra um filho, automaticamente a gente morre com ele. Mas eu digo que é preciso que a gente viva, resista. A maneira que eu encontrei de não adoecer foi dando suporte a essas mães que passam pela mesma situação Meu tratamento psicológico foi do lado dessas mulheres, dessas mães que já estavam a frente de mim na dor. Elas me acolheram. Hoje, só passo para frente o tratamento que a mim foi dado por elas porque do Estado não tive apoio de ninguém nem um pedido de desculpas eu tive por parte deles, os assassinos do meu filho. É importante que o Estado venha a ser responsabilizado. O Estado vem com helicóptero, acaba com o nosso território, que já não é tão bonito, e fica por isso mesmo Fizemos tudo direitinho na criação do meu filho. Imaginava que pudesse perdê-lo pela insegurança, mas não pelo estado, que deveria servir e proteger Quando viu o blindado, ele tentou se virar e já tomou um tiro na lombar, que o atravessou e saiu do outro lado. O sonho da minha filha caçula era ser policial civil, porque uma vez ela viu uma delegada bonita, marrenta, de boné e distintivo; e depois que o irmão morreu, ela falou que desistiu porque foi um policial que tirou a vida do Marcus. Eu criei meu filho na comunidade até os 14 anos sem tomar um tiro pelo poder paralelo, aí o Estado, que era para proteger e servir meu filho, o alveja e assassina? Não pode. Chega! Aquela blusa do meu filho é uma vergonha para o Estado e para o Brasil O Estado alvejou a Marielle, uma mulher guerreira que botava a cara e a boca por nós aqui da Maré. Só que eles pensaram que, em calar ela, ela ia morrer ali. Só que, não, a força dela se tornou maior e a dor dela também. Porque a dor da família da Marielle e a minha dor é a dor da Maria Eduarda, do menino Jeremias, tudo alvejado em escola. Indo para a escola, o menino Jeremias ia para a igreja. Que traficante é esse, gente? [...] um secretário da Educação botando lá a blusa do meu filho, esticando a blusa assim do meu filho, suja de sangue. Gente, aquela blusa é minha, ela é minha bandeira, é lá que está a minha justiça, lá que está o sangue do meu filho. O país do Brasil [...] vai ser um país velho. Vai ser um país de idoso. Porque eles estão matando nossos jovens [...]. Eles estão matando os nossos adolescentes. As crianças estão morrendo na escola. As crianças estão levantando cedo, estão fazendo seu papel. E o Estado devolve seu filho daquela maneira. A gente é sobrevivente do Estado, sim. Eu não tô destilando raiva, ódio da polícia não, mas essa polícia tem que ser uma polícia levada a sério, eles têm que trabalhar com sucesso, com êxito. Eles falaram que a operação no Complexo da Maré foi um sucesso, não foi um sucesso. Um sucesso que derrama o sangue do inocente, com material de escola dentro da mochila. Esse é o fuzil? [...] às vezes eu me sinto culpada, porque eu cobrava estudo do meu filho. Quando tem operação nas comunidades, a gente é obrigado a abandonar nossas casas e sair para a rua. Porque se a gente estiver dentro de casa e sozinho, a gente vai sofrer. Aí eu pergunto, sofrer por que, se essa guerra não é nossa? E por que esse reflexo respinga na gente? Eu costumo dizer que o meu filho não me causa tristeza nenhuma. Ele me causa saudade. Tristeza maior quem me causa é o Estado do Rio de Janeiro. Eles não nos protegem. Eles vêm matando a gente, caçando a gente que nem bicho no matadouro. O Estado deveria ir lá na nossa comunidade, nos abrigar, nos proteger. Sendo que eles nos matam. E no dia que a Polícia Civil do Rio de Janeiro atirou no meu filho pelas costas, com roupa e material de escola, foi quando eu vi que, peraí, esse problema é de todo mundo, esse problema é de todos [...]. Quando eles não chegam na nossa vítima para plantar o kit droga, eles fazem fake news. E eles ficam, pegam a nossa vítima e botam a nossa vítima como criminoso, sendo que criminosos são eles que entram lá dentro e nos matam. A gente vive numa comunidade onde existe o poder paralelo, onde existem moradores de bem, sendo que a gente conhece o nosso cotidiano da nossa comunidade. A gente sabe que é morador por um lado e o poder paralelo do outro. Se o poder paralelo está dando tiro aqui, a gente não passa ali. Um mandado para entrar na sua casa é uma tapa na cara? Não. Eu quero o seu direito no papel. Eu quero ver o papel. Um mandato de busca e apreensão na sua casa. Posso entrar? A gente quer esses direitos. Meu filho foi morto pela Polícia Civil com roupa e material da escola. [...] Para a polícia, tanto faz se é estudante, traficante, morador, para eles todos nós somos o alvo. O corpo pobre, o corpo negro e favelado. Somos minoria para eles. O Estado, que deveria nos proteger, é quem nos mata. A gente sabe que o Ministério Público (MP) é um órgão que não mata ninguém diretamente, mas é omisso. Nós, mães, vivemos cobrando do MP, dizemos a eles que é preciso monitorar as operações policiais de perto. Eles têm poder para isso, atuam no controle externo da atividade policial. Não é só autorizar uma operação, é preciso monitorar. É preciso que os agentes usem câmeras acopladas nas fardas, nas viaturas tem sempre que haver monitoramento também. Isso preservaria um pouco as nossas vidas e, até mesmo, a vida dos agentes. A minha história de vida, assim como a de muitas mulheres que vivem, trabalham, circulam e constroem o território da Maré, é marcada pela violência armada e a violência de Estado. O Estado me tirou o direito de criar meu filho e tirou o direito dele de construir seu futuro. Sou moradora do conjunto de favelas da Maré e mãe de dois filhos, um deles vitimado pela violência. A dor de enterrar meu filho de 14 anos de idade me fez renascer, fui obrigada pelo o Estado a lidar com a ausência dele. Todo dia é um dia novo para mim, hoje, vivo com a luz do meu filho. Ele vive em mim e eu ainda vivo por ele Hoje eu vivo em função da minha filha Maria Vitória de 14 anos, uma jovem linda com um futuro brilhante pela frente. É nela que eu vejo que eu preciso prosseguir ainda a vida. Meu filho se chamava Marcus Vinicius e ele tinha 14 anos quando foi morto pela CORE, Coordenadoria de Recursos Especiais, do Rio de Janeiro, em uma operação. Um jovem morto pela polícia com roupa e material de escola dentro da minha comunidade, a Maré Hoje moro ainda na Maré, mudei de casa, estou virando a folha aos poucos. A dor me fez mais forte, meu filho me ensina algo novo todo dia. Tudo que chega de bom pra mim com certeza vem em nome dele juntas somos mais fortes. Não merecemos o fim que nossos filhos tiveram. Merecemos viver com dignidade. Todas as vidas importam isso é pelo que a gente briga Silenciaram meu filho, mas a mãe dele não será silenciada. Se eu não vir a justiça criminal no caso do meu filho, acredito que, como mãe dele, eu possa ajudar outra mãe a gente quer uma justiça por igual, uma justiça que atenda o rico e a mesma que tem que atender o pobre [...]. É uma frase que eu aprendi depois que meu filho morreu e eu tenho levado essa frase comigo. Os nossos mortos têm voz e os nossos filhos têm mães. Calaram o meu filho, mas não calaram a mãe dele. Eu não aceitei o luto. Eu já parti pra luta. [...] Eles calaram nossos filhos, mas a mãe ficou. Polícia só põe medo em criança. E na mãe ninguém põe medo, não. Ninguém põe medo em bicho-mãe, não. Ninguém. Só eu sei o estrago que a polícia assassina fez no meu filho. Nasceu uma militante dentro de mim tão grande, que por causa de um filho, eu adotei aquelas crianças todas. Então, no caso, hoje eu não sou só a mãe do Marcos Vinícius. Depois da morte do meu filho, me joguei na luta ajudando a dar voz ao conjunto de favelas da Maré, ajudando a dar voz a essas mães que, infelizmente, não conseguem mais reagir. Somos a voz daquelas que têm boca mas não têm a oportunidade de falar, porque, muitas das vezes, a mídia burguesa não as escuta. Hoje, eu digo aos moradores o seguinte: todas as vidas importam, não vamos aceitar que nossos filhos e filhas sejam mortos pelo caminho, não queremos mais ver sangue de filho de ninguém no chão da favela. A vida de uma mulher “mareense” é uma vida de muita luta, porque a própria favela é símbolo da nossa resistência na cidade. Da resistência de mulheres faveladas, sobretudo. Mas, assim como eu, são essas mesmas mulheres vitimadas que historicamente lutam pelo nosso direito a uma vida sem violência no nosso território. Seja através da luta política em movimentos nacionais e/ou comunitários, se envolvendo em organizações religiosas, se dedicando ao trabalho, ou, seja lá como for: nós resistimos. Meu filho era um passarinho. Durante o dia, tinha a vidinha dele, estudava e, quando chegava, tinha as tarefas para ocupar a mente: jogar lixo fora e não deixar a garrafa de água vazia na geladeira. Era tarefa dele. Depois da morte dele, passei três dias muda e sem comer e reparei com o tempo que o lixo foi acumulando no quintal e me dei conta que era porque estava faltando aquela figura E estava doida para ver o meu filho com barba. Lembro que uma vez ele me mostrou uma espinha, brinquei que foi picada de mosquito, mas meu marido me explicou que a primeira espinha significa que ele estava virando um homem de verdade A minha casa agora é um museu, um mausoléu. Então, aonde eu tiver que ir em nome do meu filho, eu vou. Eu vou, porque tem que se fazer justiça. A gente tem um coletivo de mães que a gente sai para pregar o amor de mãe. A maneira que eu encontrei de militar é a maneira que eu encontrei de deixar a memória do meu filho viva. Eu perdi um filho, sendo que eu ainda tenho uma filha. Eu tenho aquele monte de crianças lá atrás da minha comunidade que precisam de mim hoje. Hoje eu passo na rua, eu não sou uma anônima. As crianças me cercam, tia, tia, tia, eu estudo lá na escola do seu filho, tia, manda o helicóptero parar de dar tiro. Eu, calma, calma que a gente vai chegar onde vocês querem. Então, vamos desarmar mais. Vamos dialogar. A gente é a favor de um bom diálogo. Eu gosto de dialogar. Entendeu? Acho que a gente dialogando chega muito longe. Melhor do que trocar tiro. Chega de trocar tiro.