Nívia do Carmo Raposo
É mãe e voz de Rodrigo Tavares Raposo, vitimado pelo Estado; ativista dos direitos humanos e feminista; atua como mãe pesquisadora (e não objeto) no CAAF - Unifesp, sobre saúde mental de familiares de vítima de violência do Estado; tem relação com diversos movimentos sociais que trabalham a questão das pessoas pretas e memórias afropindorâmicas.

Os fenômenos da vida são percebidos por diversos ângulos. Esses jogos de escalas são entendidos pela população que carrega os marcadores sociais mais criminalizados. Para esses foram criados pelo estado as punições e as leis para garantir a proteção de quem tem capital.
Há situações em que tem inclusive testemunhas que viram uma pessoa sendo enfiada dentro de um carro. Isso é o desaparecimento forçado. A pessoa não está desaparecendo porque quer. Isso precisa de tipificação específica. Mas não temos dados, sendo que tem um quantitativo enorme de casos.
As mortes não são investigadas porque a polícia que mata é a que investiga. E não são casos isolados, tem em toda Baixada Fluminense, e agora com a pandemia tudo fica mais difícil. As milícias continuam invadindo e matando.
Eu já entendi todo o processo de culpabilizar o meu filho por ele ter sido morto. Então, desde o momento que a gente chega na delegacia, a gente já entende que o nosso filho, por ser um morador periférico e preto, ele não é vítima, ele já é visto como um ser humano matável
O desaparecimento forçado é um quantitativo muito grande na Baixada Fluminense e é pouco falado. Na região é ainda pior, porque as pessoas se sentem amedrontadas. Então, a Iniciativa começou essa campanha para conscientizar sobre o que é o "desaparecimento forçado" e com frases das próprias mães.
A primeira coisa que a polícia faz é criminalizar a vítima e a sociedade acata
Em regiões onde operações acontecem, moradores como nós, que ficamos presos no meio de operações policiais, sem poder retornar às nossas casas ou preocupados com nossos filhos, sofremos um impacto severo na saúde mental, passando por estresse pós-traumático, ansiedade, depressão e, por vezes, inclusive, pensamentos suicidas.
Quando o Estado mata, mata até aqueles que agem corretamente. Ensinei meu filho a respeitar as pessoas e a ser um homem com todos os superlativos, para simplesmente perdê-lo para sujeitos com desvios de conduta dentro de uma instituição que, teoricamente, é destinada a nos ‘servir e proteger'.
Temos um Estado que já está acostumado a apagar as histórias dos nossos ancestrais. Cabe a mim, como mãe, amplificar nossas lutas e me somar a todas que perderam seus filhos.
Muitos casos são esquecidos porque o apagamento é uma arma eficaz do Estado. Juntando ao racismo institucional e estrutural, o esquecimento é a arma perfeita. Um dos motivos que me fazem lutar a cada dia. Penso que não existe interesse em investigar essas mortes porque o Estado jamais assumiria essa culpabilidade.
Ele estava no quartel e gostava muito do que fazia. Até tentava convencer os amigos a entrar. Uma semana antes de morrer, um homem o abordou, o acusando de roubar no bairro. Cobrou R$ 500 por semana e o ameaçou, caso ele não pagasse. Meu filho não entendeu e não deu importância. Uma semana depois, foi morto com seis tiros.
A gente acaba sendo revitimizadas. Não vivemos o luto. Logo após o ato, a gente tem que se preocupar em proteger a memória dos nossos, porque a primeira coisa que o Estado faz é tentar criminalizar a vítima. E isso é outra forma de violação.
Se temos uma Constituição que diz que todos temos direitos e todos somos iguais, então é meio contraditório o Estado negar os nossos direitos. Lembrando que nós vivemos numa sociedade capitalista, racista, preconceituosa, classista, discriminatória. Então, quando as pessoas começam a descobrir que também têm direitos, elas começam a reagir.
Outra coisa que é fundamental nós entendermos é que temos a segurança pública totalmente militarizada. Isso faz com que a nossa luta fique um pouco mais difícil, já que o braço armado do Estado também faz parte dessa segurança pública. E cada vez acontece de ficar com mais armas nas ruas, com mais violência e com o Estado querendo se proteger do inimigo e declarando o povo como inimigo Então, fica difícil demais para poder a gente lutar contra o Estado, mas a gente pode lutar de maneira inteligente.
(...) O Estado faz isso o tempo todo. Nos tratam sempre como os escravizados do passado e a gente tem que lutar o tempo todo contra isso.
E aí são erros sem querer? Não, não tem nada de sem querer. Não existe sem querer para pobre, para preto, para favelado, não existe sem querer. Existe uma política genocida.
A Baixada Fluminense é violentada o tempo todo. Porque a Baixada não é violenta, ela é violentada.
Nós, mães negras, que estamos dentro dessa luta, não conseguimos dimensionar por vezes o quanto produzimos de resistências, e ao ver um memorial que nos homenageia isso nos fortalece a continuar a luta
Os direitos humanos é prioridade para a vida, é importante que as pessoas saibam que a vida de todos é importante, todos somos humanos, então o que a gente faz é usar o nosso corpo, o nosso corpo negro, o nosso corpo negro pobre, para tentar ajudar os outros.
Não reagir com violência, nós fazemos uma pedagogia contra a violência, mas reagir mostrando que nós também temos direitos, nós também podemos dialogar, nós também temos argumentos.
Quando a gente ganha conhecimento, quando a gente faz essas lutas, faz atos, faz audiências públicas, isso é ganhar conhecimento e esse conhecimento é passado para as nossas companheiras.
Mostrar que as histórias delas também são importantes, que merecemos ser lidas e referenciadas dentro da academia, me traz alegria. Me renova a esperança, principalmente se essa leitura fizer parte da formação de profissionais que atendam as massas. Pois acredito que nossos estudos podem contribuir também para o fim do racismo institucional.
Eu fiquei mais surpresa ainda quando a gente começou a levar na verdade as pautas. Porque aí a gente não estava sendo direcionadas, a gente estava construindo junto, fazendo uma construção coletiva do que a gente queria, sobre o que é que a gente queria falar, quais as perguntas? qual o caminho que a gente podia seguir? Qual a metodologia? .
O filho plantava girassóis junto com ela, e agora ela segue plantando e diz que, toda vez que vê um, lembra dele.” Em seu depoimento no livro, Nívia explica o sentimento: “você planta um com uma semente e quando o girassol nasce, ele aponta para o sol o tempo inteiro, quando ele morre, você vê a quantidade de sementes que tem em uma flor. São muitas sementes, então é como se fosse a extensão da corrente do bem, a gente vai multiplicando as coisas.
Temos um Estado que já está acostumado a apagar as histórias dos nossos ancestrais. Cabe a mim, como mãe, amplificar nossas lutas e me somar a todas que perderam seus filhos.
Muitos casos são esquecidos porque o apagamento é uma arma eficaz do Estado. Juntando ao racismo institucional e estrutural, o esquecimento é a arma perfeita. Um dos motivos que me fazem lutar a cada dia. Penso que não existe interesse em investigar essas mortes porque o Estado jamais assumiria essa culpabilidade.
A gente luta para poder manter a memória dos nossos entes, porque se ele não é importante para o Estado, ele é importante para a gente. Nós não somos sujeitos descartáveis, nós somos cidadãos e o Estado tem que nos respeitar.
Eu, ao entrevistar uma mãe, é me ver falando também. É como se eu estivesse vendo meu reflexo, então eu sei exatamente o que elas estão passando, eu sei exatamente o que elas estão vivendo. Eu sei como é a vida daquela mulher sofrida. Essas pessoas são pessoas que eu faço parte 58 da vida delas, não é só da militância, é para além disso. É eu estar nos aniversários dela, estar acompanhando o jogo de futebol, estar lá enchendo a cara xingando o juiz, sabe? Bebendo com elas, é eu estar fazendo parte do dia a dia dos filhos. Porque ali não é só ela, é toda uma família… Então eu sabia a realidade daquelas pessoas, é saber o que ela está falando, saber o que ela está sentindo. E eu sei que o que eu perguntar elas vão responder porque elas confiam plenamente em mim.
A gente costuma ser sempre objeto de pesquisa. É convidada para todas as áreas, do direito, assistência social, psicologia. Então acaba sendo que a gente conhece muitas pessoas dentro desses nichos, que são pessoas que não nos atendem depois.
O objeto de estudo também pode ser pesquisador.
A prioridade realmente é reduzir as mortes violentas. Espero ser possível tentar educar mais as pessoas e, a partir disso, fazer com que esse povo comece a lutar e esse povo comece a ganhar voz, porque às vozes na Baixada são muito caladas, pautadas pelo medo.
Mostrar que as histórias delas também são importantes, que merecemos ser lidas e referenciadas dentro da academia, me traz alegria. Me renova a esperança, principalmente se essa leitura fizer parte da formação de profissionais que atendam as massas. Pois acredito que nossos estudos podem contribuir também para o fim do racismo institucional.