Ana Paula Oliveira

Ana Paula de Oliveira integra o coletivo Mães de Manguinhos, que é um movimento formado por Mães da favela de Manguinhos no Rio de Janeiro que têm filhos encarcerados ou que perderam seus filhos pelo braço armado do Estado. O coletivo realiza mobilizações por direito à memória, verdade, justiça, reparação e a responsabilização dos agentes violadores. As Mães de Manguinhos dedicam-se ao acolhimento de mulheres, especialmente mães e familiares vítimas da violência de Estado, por meio de ações de apoio, trocas e fortalecimento coletivo na elaboração do luto e na inserção nas lutas sociais. O coletivo luta por verdade, memória, justiça, liberdade e, sobretudo, pela garantia das vidas negras, pobres, faveladas e periféricas que geralmente são alvo dessa violência.
A grande maioria dos casos são arquivados, não saem nem da delegacia, então onde acontece uma investigação, são casos onde mulheres, mães, pais, familiares como eu, não se dá o luxo de ter esse momento do luto, para ficar tentando entender o que aconteceu e vai à luta, em busca da verdade, em busca dessa justiça. Eu costumo dizer até que a gente nem vive, a gente sobrevive, porque todos os dias a gente precisa lutar pela nossa vida, a gente precisa lutar por todos os direitos e muitas vezes são direitos básicos, sabe? Como saneamento básico, um esgoto, uma educação de qualidade para os nossos filhos. Para tudo isso a gente precisa lutar, porque vou dar um exemplo aqui, na própria pandemia, quando as pessoas diziam que todos estavam no mesmo barco, não era uma verdade, não estávamos no mesmo barco, porque as pessoas tinham que trabalhar, tinham que sair, nem todos tiveram o privilégio de poder ficar dentro de casa preservando a sua saúde. A grande maioria das pessoas, que é a população pobre, trabalhadora, precisavam sair para trabalhar para trazer o sustento para dentro de casa. (...) vimos uma abordagem policial com jovens e a gente se aproximou para observar. E a partir do momento que a gente se aproximou, fomos insultadas, xingadas com nomes de baixo calão, tivemos fuzis apontados (...) O cano do fuzil apontado no nosso peito foi um dos momentos de muito terror e de muita tensão, porque os policiais estavam visivelmente alterados e falaram que a gente não tinha nada que estar se metendo no trabalho deles. A gente falou que (...) estava ali apenas observando a abordagem deles, até porque trabalham para a gente e são pagos com o nosso dinheiro. E a gente tem todo o direito de fiscalizar. Mas pelo fato de a gente ter feito esse movimento, de observar, já foi a gota d'água para eles apontarem as armas para os nossos peitos e tentar de alguma forma nos intimidar. Meu filho foi assassinado com um tiro nas costas! Essa luta não pode ser só minha! Acabaram com a minha vida e da minha família! Essa é a resposta que a sociedade da pra mim?! Desde a implementação da UPP em Manguinhos, no final de 2012, até o assassinato de Johnatha, já vivemos outras duas grandes dores: dois assassinatos cometidos por policiais militares contra jovens negros. Eles também têm seus nomes e rostos na bandeira do Movimento Mães de Manguinhos: Matheus de Oliveira Casé, assassinado aos 16 anos, no dia 20 de março de 2013; e Paulo Roberto Pinho de Meneses, assassinado aos 18 anos, no dia 17 de outubro do mesmo ano.. Infelizmente, a gente que mora em favela cresce vendo a violência do Estado. Isso sempre foi muito presente na minha vida. Se por um lado, o Estado não é presente para manter uma escola de qualidade, uma infraestrutura, moradia, educação e saúde, por outro, esse mesmo Estado investe muito na dita segurança pública, entre aspas. Faz crescer a presença da polícia, que bate nas pessoas pelo fato de estarem fumando um cigarro de maconha, por exemplo. Essa sempre foi a minha realidade. Cresci com medo da polícia. Mas também vendo as ruas com esgoto a céu aberto, sem ter uma área de lazer para as crianças. A gente vê acontecendo com os outros, com os vizinhos, pessoas conhecidas, e a gente fica sempre naquela apreensão. Tanto é que assim, quando o Jonatha entrou na fase de adolescência, eu cumpria o mesmo ritual que a minha mãe fazia comigo. Perguntava se estava com a identidade ou a carteirinha da escola. É assim a criação dos filhos que nascem e crescem nas favelas. São sempre orientados a ter algo que identifique e ou que comprove que eles estudam ou trabalham. É uma preocupação que uma mãe que mora na Zona Sul do Rio de Janeiro, em um condomínio, com outro padrão de vida, não vai precisar ter. De que se o filho não estuda ou não trabalha vai virar um alvo da polícia. Esse é o resultado que a sociedade deu! A sociedade compactua com policiais assassinos! A sociedade compactua com policiais assassinos. A culpa é da sociedade de os PMs continuarem matando nossos filhos. Ele já foi réu por outros homicídios. E eu aqui com a dor de ter meu filho assassinado com um tiro nas costas. Essa luta não pode ser só minha. Acabaram com a minha vida e da minha família (...) eu moro até hoje em Manguinhos, porque não tenho condições financeiras de morar em outro lugar (...) pelo simples fato de morar numa favela, eu corro risco como qualquer outro morador de uma favela corre, eu corro risco de ter a casa invadida pela polícia, eu corro risco de ser agredida durante uma abordagem policial, eu corro risco de ser morta, mas esse é um risco que todo e qualquer morador de favela corre o tempo todo. Existe uma política de segurança pública pautada na falácia da guerra às drogas, pautada no combate ao tráfico de drogas, e o que a gente vê é um extermínio da população pobre, na verdade, eu vejo isso como um projeto de extermínio da população pobre, preta, moradora de favela e periferia. Então a gente vê que os poderes que estão aí não são para garantir o direito do povo. Pelo contrário, quando eu digo que para mim o sistema de justiça tem dois pesos e duas medidas, tem, e ninguém vai me fazer falar o contrário, vai ter que me provar. Porque eu vejo um sistema de justiça que só enxerga a população preta, pobre, quando é para condenar. A gente já está cansada de ouvir esse discurso, porque toda vez que a polícia mata numa favela ou nos seus arredores, diz ou que foi bala perdida, ou que foi uma troca de tiro ou que a vítima morreu em confronto. Infelizmente, com o meu filho não foi diferente. Então eu venho nessa luta há 10 anos para trazer essa verdade à tona, e quando a gente consegue trazer a verdade, é esse descaso, é esse deboche, é uma falta de responsabilidade. (...) nossos pais nos criam já com medo de nos perder. E isso a gente vai passando para a criação dos outros filhos. Então, crescer num país racista como o Brasil é crescer com medo de ter sua vida ceifada a qualquer momento pelo simples fato de você ter a pele preta, de morar num território, que são os territórios de favelas e periferias, onde majoritariamente as pessoas moradoras desses locais não conseguem ter conhecimento da sua história de vida. Somente depois que uma violência muito grande atinge a sua vida, como foi no meu caso. (...) ser mulher preta, pobre, moradora de favela no Rio, é ter que o tempo todo lutar pela sua sobrevivência e pela sobrevivência dos seus, é lutar para garantir seus direitos. E quando eu encontro essas mulheres, eu tenho a resposta para a pergunta que eu fazia: Por que a polícia matou o meu filho? É ali que eu encontro a resposta, matou o meu filho simplesmente pelo fato do meu filho ser um jovem negro, morador de favela. E isso trouxe uma revolta muito grande dentro de mim, sabe? Porque eu falei: Esse mesmo Estado que nunca me ajudou em nada na criação do meu filho, é o mesmo Estado assassino que veio e tirou a vida do meu filho. E eu vou denunciar isso enquanto eu viver, enquanto eu respirar. Hoje, mudou um pouquinho. Mas se a gente parar para comparar, é da mesma forma. Arrancam os nossos filhos do nosso convívio, porque dizem que existe uma guerra, que existe um combate ao tráfico de drogas, e que uma parte da sociedade precisa de paz. E para dar essa paz para essa sociedade, para essa camada da sociedade que é mínima, que é elite, eles têm que arrancar nossos filhos, entrar nas favelas, executar, forjar, privar de liberdade com um falso discurso de guerra às drogas. Todo dia é isso. Eu achei que quando o caso do meu filho chegasse ao judiciário - porque eu nunca tinha estado em um tribunal de justiça até acontecer a primeira audiência do caso do Jonatha -, eu achei que ali tudo seria resolvido, que a solução ia estar ali. Mas quando aconteceu a primeira audiência, eu saí dali arrasada, muito revoltada, saí dali com as minhas energias sugadas, porque eu vi que quem estava sendo julgado naquele lugar era o meu filho, e não o policial assassino que já respondia por outros homicídios. Porque as perguntas que o promotor e o juiz faziam eram: “mas seu filho trabalhava? Seu filho estudava? Seu filho usava drogas?”. Está investigando quem? A vítima que foi meu filho? “Ah, mas na favela onde você mora, tem tráfico de drogas?”. Essas perguntas deixaram claro para mim que, mais uma vez, o meu filho estava sendo julgado, e não o policial assassino. O Jonatha foi morto duas vezes, assassinado duas vezes, assassinado o corpo e, de todas as formas, a dignidade. Eu acho que isso, essa segunda morte, foi o que me levantou, foi o que me deu um sacode e falou, você não pode ficar calada. Sou a mãe do Jonatha. Tenho muito orgulho de ser a mãe dele. Já caí algumas vezes. A primeira quando meu filho foi assassinado. Eu nem imaginava que ia conseguir levantar. Mas toda vez que me derrubam, eu levanto com mais força. Aumenta a vontade de gritar. Porque eu não estou pedindo. Eu exijo que a justiça seja feita. É o mínimo que podem me dar como resposta. A condenação desse policial significa que ele não vai mais fazer novas vítimas. Se ele for inocentado, ele vai seguir com a certeza de que pode matar e nada vai acontecer. E uma das nossas lutas nesses 10 anos é por uma perícia independente. O que agora conseguimos agora no caso do Jonatha. Como que a própria polícia vai investigar a polícia? A gente sabe muito bem que eles se acobertam. Então, não tem como a gente acreditar que vai acontecer uma justiça com essas coisas. Por mais que tentem fazer com que a gente acredite que não vai dar em nada, seguimos lutando. Eu ouvi muito isso, de ‘deixa para lá, não vai dar em nada. A minha luta, como Ana Paula, mãe de Johnatha, e das centenas de mães que perderam seus filhos pela violência policial é uma luta por direitos humanos, contra o racismo e a impunidade. 10 anos é tempo demais: exigimos justiça Para Johnatha! E assim, hoje eu só tenho a agradecer por ser a mãe do Jonatha, a mãe desse ser de luz que transformou a minha vida, tanto com a chegada inesperada dele, porque não foi uma gravidez planejada, mas ele também transforma a minha vida com a partida dele, que também foi uma partida muito inesperada, mas poder ser a mãe do Jonatha é algo que me fortalece, é algo que me enche de orgulho, é algo que transformou a minha vida, e eu só tenho a agradecer. Se eu não falar em nome do Jonathan, ninguém mais vai falar. Eu acho que ninguém tem mais legitimidade do que uma mãe para falar do seu filho. E eu penso que só nós podemos mudar as estruturas dessa sociedade, as estruturas do sistema judiciário, então eu caí sim, para mim foi mais uma rasteira desse sistema de justiça, de justiça do Estado, mas eu não posso me dar o luxo de ficar no chão. (...) o tempo todo a gente precisa lidar com a criminalização da pobreza. Eu acho que essa frase, direitos humanos dentro da favela para bandidos, é mais uma frase que criminaliza as pessoas que vivem dentro da favela, como se para nós não pudessem existir direitos. Mas o Movimento das Mães de Manguinhos está aqui para provar que nós temos direitos sim e a gente luta pelos nossos direitos todos os dias. (...) o tempo todo a gente precisa lidar com a criminalização da pobreza. Eu acho que essa frase, direitos humanos dentro da favela para bandidos, é mais uma frase que criminaliza as pessoas que vivem dentro da favela, como se para nós não pudessem existir direitos. Mas o Movimento das Mães de Manguinhos está aqui para provar que nós temos direitos sim e a gente luta pelos nossos direitos todos os dias. (...) ter acesso a uma educação de qualidade, o nosso filho poder ir para a escola e ter professor, ter uma merenda de qualidade, isso é um direito humano. Então, para quem não sabe o que é direito humano, direito humano é todo direito a qual todo cidadão deveria ter acesso. (...) existem sim pessoas dentro das favelas também, assim como eu, que sou uma mulher preta, pobre, favelada, mas que tem uma formação a nível superior, assim como a minha irmã, que também é uma mulher pobre, preta e favelada, mas que é uma arquiteta (...) nós estamos aqui para mostrar e falar que nós temos direitos e a gente vai seguir lutando pelos nossos direitos, (...) as outras pessoas queiram ou não. Não adianta criminalizar, porque se eu fosse aceitar isso, criminalização, eu estaria até hoje de braços cruzados. Depois que a polícia matou meu filho e tentou dizer que ele era um bandido, que ele morreu em uma troca de tiros (...) Se eu aceitasse as críticas, eu estaria de braços cruzados, aceitando a crítica das pessoas que não querem nos ver de pé, não querem nos ver questionando, questionando as coisas erradas, mas a gente está aí, a gente vai continuar questionando, a gente vai continuar, sim, defendendo os direitos humanos. Eu aprendi que cada dia que eu visto a camisa com a foto do meu filho, eu estou fazendo justiça. Que cada dia que eu consigo forças para me levantar, eu estou resistindo e eu estou indo contra o projeto desse Estado. Eu estou indo contra esse sistema que não nos quer vivos. Eu entendi isso e é isso que hoje eu busco mostrar e fazer com que outras mães entendam. Eu sempre falo para elas, uma coisa muito importante, a gente nunca vai deixar de ser a mãe dos nossos filhos. Isso ninguém vai tirar da gente. “[A viagem] foi importante para denunciar a atuação da polícia dentro das favelas. Todos os dias, a gente vê jovens, crianças, negros e moradores de favela sendo assassinados. Para mim, foi importante ter essa oportunidade de levar o meu grito por justiça e pelo fim dessas execuções.” “Todos os dias de manhã, a primeira coisa que eu pensava era ‘por que a polícia matou meu filho’? Eu queria essa resposta. Vi isso também em outras mães. Elas pensavam que podia ser bala perdida, algumas se culpavam pela morte dos próprios filhos. “Mês das mães é um mês bem difícil para a gente: uma mãe que teve um filho arrancado dessa forma tão covarde, tão injusta. Nós estivemos em São Paulo, com as Mães de Maio, são mães que estão há dez anos na busca de alguma justiça. Há dez anos resistindo, lutando, a gente tem aprendido muito com elas também” “Esta união das mães é muito importante, são vozes que engrossam o coro no grito por justiça, o grito pela vida. Elas mostrando toda essa resistência para gente, e a gente, mais novas com essa dor, chegando com mais gás e mais vontade e dividindo esse gás com elas também”. "Meu filho não volta mais, mas eu estou nessa luta pela vida, a minha e de todas as pessoas que estão na favela, não só nessa, mas em todas. Por mais que falem que não vai dar em nada, eu tenho certeza que a luta traz resultados, sim, pode até demorar, mas os resultados chegam” A gente luta por memória, verdade e justiça sim mas, acima de tudo, a nossa luta é pela garantia das vidas das pessoas. E não tem nada nesse mundo maior que isso” ‘Vou denunciar isso enquanto eu respirar’: Segundo o Atlas da Violência de 2017, 75% das vítimas de homicídio no Brasil são negras. Desse grupo, 91% é formado por homens, entre esses, 55% jovens entre 15 e 29 anos. Esses são dados que machucam, mas precisam ser compartilhados, pois a discussão sobre o genocídio negro no país precisa sair do espaço exclusivamente militante e ser trazido para a população. "Não esqueceremos, não descansaremos e seguiremos juntas e juntos: os movimentos de mães, como o Mães de Manguinhos, os movimentos sociais de favela como o Fórum Social de Manguinhos, as organizações de direitos humanos, como a Anistia Internacional Brasil, a Justiça Global e o Instituto Marielle Franco e os cidadãos e cidadãs que não querem mais que a história se repita!" “Eu preciso seguir cuidando do meu filho. Eu preciso ser a voz dele” Eu costumo dizer que dentro de mim eu carrego uma dor imensa, que eu não consigo nem descrever, só quem sente é que sabe. Mas eu também carrego um amor imenso pelo Jonatha, e eu acredito que esse amor é muito maior do que a dor. Porque é isso que me faz estar de pé, isso que me faz ter força. Eu tenho certeza que se eu carregasse só dor, eu já teria definhando, morrido, mas aqui dentro vai também muito amor. No mundo em que a gente vive hoje, onde as pessoas destilam tanto ódio a troco de nada, tanto ódio, tanta maldade, tanta injustiça, tanta covardia, eu me sinto uma pessoa privilegiada e honrada de poder também compartilhar amor. Porque eu acredito muito na força do amor. Eu acredito que o amor é um sentimento capaz de transformar sim, ele me transformou, tem me transformado, tem transformado a minha vida, desde quando o Jonatha chegou na minha vida. Então, queria que todas as pessoas tivessem a oportunidade de conhecer, de sentir algo assim, que pudesse transformá-las também, e que essa transformação não ficasse só nelas, que pudesse ser a transformação de outras pessoas também. Hoje, eu me vejo não só como a mãe do Jonatha e da Maria Paula, meus filhos biológicos e do coração, mas também como a Ana Paula, Mãe de Manguinhos, a Ana Paula, mãe de tantos outros filhos, e que acaba sendo também um pouco mãe de outras mães. Assim como eu um dia estive num momento de muita tristeza e vulnerabilidade, tive uma outra mãe que segurou na minha mão e falou: “vamos juntas, não vamos sucumbir, vamos em frente, vamos lutar”. Eu acho que é isso, acho que só a luta muda, transforma, eu acredito que a luta e o amor também. “Tem que haver uma reforma na polícia e mudanças na política de segurança pública. Enquanto eu viver, eu vou lutar por justiça e espero contribuir de alguma forma para que esse extermínio e essas execuções acabem. A gente não pode desistir por amor aos nossos filhos e temos que continuar nessa luta”. Eu me agarro nessa certeza de que eu posso junto com tantas outras pessoas – outras mães, organizações, imprensa – trazer algo de bom para a sociedade. Porque deve ser uma luta de todos. A gente vai seguir cumprindo a nossa missão e eu quero acreditar na justiça. Não tem mais como voltar atrás. É só para frente mesmo. "E uma das nossas lutas nesses 10 anos é por uma perícia independente. O que agora conseguimos agora no caso do Jonatha. Como que a própria polícia vai investigar a polícia? A gente sabe muito bem que eles se acobertam. Então, não tem como a gente acreditar que vai acontecer uma justiça com essas coisas. Hoje, eu me vejo não só como a mãe do Jonatha e da Maria Paula, meus filhos biológicos e do coração, mas também como a Ana Paula, Mãe de Manguinhos, a Ana Paula, mãe de tantos outros filhos, e que acaba sendo também um pouco mãe de outras mães. Assim como eu um dia estive num momento de muita tristeza e vulnerabilidade, tive uma outra mãe que segurou na minha mão e falou: “vamos juntas, não vamos sucumbir, vamos em frente, vamos lutar”. Eu acho que é isso, acho que só a luta muda, transforma, eu acredito que a luta e o amor também. Porque quando eu falo que não só o policial assassino tem as mãos sujas com o sangue do meu filho, eu quero englobar sim nessa responsabilização pela vida do meu filho, todo um sistema. O judiciário também tem as mãos sujas com o sangue do meu filho. Parte da sociedade também tem as mãos sujas com o sangue do meu filho, porque eu acho que as pessoas não deveriam seguir indiferentes. Na minha opinião, a indiferença também mata, então eu costumo dizer que essa luta não pode ser só minha, não pode ser apenas das mães que perdem seus filhos pela letalidade policial. Essa luta deveria ser uma luta de toda uma sociedade, porque a gente luta por memória, por verdade, por justiça, sim. Mas a nossa luta é acima de tudo pela garantia da vida das pessoas, e não tem nada maior nesse mundo do que a vida das pessoas. A gente viu a necessidade também de compartilhar esses conhecimentos e de fazer formação política com essas vítimas e familiares de vítimas. Porque muitas vezes elas também compartilhavam a ideia de que foi uma bala perdida. Muitas vezes tinha mães que se achavam culpadas pela morte do próprio filho. Então acho que a necessidade de fazer uma formação política para que as pessoas tenham esse entendimento do porquê que essa violência nos atinge. E é porque nós vivemos num país ainda muito racista, isso precisa ser entendido. Então a gente vê o sucateamento da educação, professores desrespeitados, mal pagos, escolas sucateadas. Com relação à saúde, é a mesma coisa. No entanto, não falta dinheiro, não falta verba para investir em caveirão, em balas, em munições para matar a população pobre e trabalhadora da sociedade. Então, eu acho que tem muitas contradições.